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Construindo identidades do território - MARCO SILVESTRE

  • Foto do escritor: Renan Novais
    Renan Novais
  • 20 de jun. de 2025
  • 12 min de leitura

Essa primeira série de entrevistas da DESFORRA CRÍTICA!, foram feitas com artistas que são de uma imensa preciosidade, não só por serem criadores dos quais acompanhamos e admiramos o trabalho, ou porque já, em outras ocasiões, empreendemos parcerias nas realizações de projetos, mas acima de tudo, por serem artesãos da cultura que resistem bravamente em um cenário muitas vezes não tão favorável. Esses artistas continuam ano após ano, frente à todas adversidades, desenvolvendo trabalhos na região, trazendo, seja pelo teatro, pelo cinema, pela poesia, pelos trabalhos sócio-culturais, debates, reflexões, aprendizados e trocas. Criando não só um movimento cultural potente na região, mas um movimento que fortalece os vínculos sociais, os grupos, os encontros, e, possivelmente a mais poderosa delas, as nossas identidades.



MARCO SILVESTRE é ator, e vem realizando diversas montagens teatrais e intervenções artísticas selecionadas pelas leis de incentivo com o Grupo Notórious. No audiovisual integra o elenco e auxilia na produção de curtas-metragens com a produtora independente Paulista Filmes. Premiado como "Artista Revelação" no festival Dago Menezes 2024, na cidade de Itu-SP.




Marco, me fala um pouco sobre você e o que você faz enquanto artista:


Eu sou um artista preto da cidade de Caieiras, tenho 27 anos, já trabalho há uns anos na área artística, e hoje eu integro dois coletivos na cidade, como ator e produtor do Grupo Notorius de Teatro, que agora estamos produzindo uma obra pela Pnab, e já fizemos outras coisas também pela Lei Paulo Gustavo, também faço parte como ator e assistente de produção na produtora independente Paulista Filmes, que atualmente também vem fazendo uma produção pela PNAB aqui em Caieiras. Eu cresci uma criança meio sozinha, meu refúgio era cadernos, desenhar escrever e assistir. Eu tenho um livro de poesias, eu fazia muito quando era pequeno e ganhei até uma competição na escola. 


Qual sua trajetória artística?


Eu sempre gostei muito de ver filmes, desenhos, novelas, e sempre gostava de brincar com isso. Juntava lá um dinheirinho pra comprar Dvds e mergulhava nas histórias. Minha família nunca foi muito ligada a cultura e arte, e sempre foi muito difícil o acesso, eu tinha acesso e aprendia a isso na escola, foi através de uma amiga da escola em 2011 que veio meu interesse por teatro, ela me apresentou o curso e disse que eu tinha muito jeito pra ser ator, eu era muito expressivo e criativo dentro da sala de aula. Entre no curso livre do Centro Cultural (Centro Cultural Isaura Neves) e me encantei com isso, fiz várias montagens durante o curso, e fui buscando aprender cada vez mais em outros lugares, através de cursos, workshops, palestras e o curso vocacional, buscando sempre aprender dentro do que era possível pra mim.


Você se lembra de algum momento em que a arte te surpreendeu? Ou aquele momento que você pensou: “Nossa, quero ser artista!”


Sim. O que eu gosto na arte é que eu me sinto bem vivo e inspirado, pra saber e contar as histórias, as próximas histórias e acolher um mundo diferente para as pessoas, que assim como eu um dia precisaram estar num mundo diferente, sabe? Conhecer coisas diferentes. 

A gente precisa, às vezes, se descolar da realidade e enxergar outras possibilidades e contradições que acontecem dentro da arte. A arte nos traz isso, através dos livros, dos filmes, eles te fazem perceber e entender coisas ao nosso redor, se questionar, se localizar, isso é muito interessante, uma hora você vive uma coisa, outra hora você vive outra. 

Quando eu era criança, na escola, eu via cinema e eu achava incrível ver como as pessoas podiam ficar encantadas e imersas naquilo, eu gostava de ver como aquilo tocava as pessoas, gosto de ver a reação das pessoas, e às vezes nem percebia as minhas. Não sei se lembro de um momento, uma cena, lembro dos sentimentos, da força daquilo na tela, no palco, ver os atores, a concentração. Me prende quando eu vejo as pessoas, os atores, presos naquilo, na circunstância, sabe? É a sensação de ver as pessoas concentradas naquilo. 


Você faz parte do Grupo Notorious, que é um grupo regional de Caieiras. Me conta o que é o grupo e o que vocês produzem:


Nós criamos o grupo com a necessidade de manter a cultura viva e ativa em Caieiras, com várias perspectivas, cada grupo gosta de fazer alguma coisa. No grupo a gente tem atores, diretores, dançarinos, cenógrafos, a gente vai se diversificando, cada um com a sua essência. Nós criamos o grupo para que além da experiência evolutiva, possamos contribuir no que rola na cidade, trazendo visões diferentes com o pessoal do grupo. Nós criamos a companhia também pra ter liberdade de escolher os temas, as formas de ensaio, os processos de pesquisa se adequando ao ritmo de cada um. A gente gosta bastante de comédia, temos focado em comédia e em um espetáculo infanto-juvenil, o grupo é novo, temos dois anos, estamos pegando a essência das pessoas, entendendo como funcionam. Nós gostamos de escrever nossas próprias histórias, eu mesmo gosto de misturar a comédia com o drama, a gente busca trabalhar com a união das coisas. E como comédia e infantil têm mais possibilidades de venda, a gente pensa em não ficar sempre tirando do próprio bolso, a gente tem focado nisso por conta dos editais e de dinheiro também.


Quantas pessoas negras tem no grupo, além de você? E o grupo se preocupa com a questão interracial que o compõe, discutindo racialidade e possibilitando o protagonismo de pessoas pretas?


Isso sempre me preocupa, nosso grupo é um pouco escasso de negros e mulheres, de negros, somos eu e mais dois, aliás, um eu não sei como ele se reconhece. Então somos dois, num grupo de sete, e duas mulheres. A gente se preocupa e faz convite, mas a gente se limita ao pessoal de Caieiras, pela facilidade de se encontrar. Eu cheguei a fazer alguns convites, para além de ter mais pessoas no grupo, de a gente fazer outros tipos de pesquisas, mas é difícil unir a galera. A gente discute isso por conta da cultura, falamos sobre negritude e tudo mais dentro do grupo. A gente não põe algumas coisas em prática por termos medo, quando fazíamos a peça nordestina, toda hora ficamos pensando se determinadas cenas não eram xenofóbicas, eu sempre vejo que temos medo, mas mais pela falta de pesquisa, quanto mais gente no grupo, mais ampla vai ser a nossa pesquisa. A gente discute, mas não sabe como propor. Eu não quero que as coisas do grupo sejam só uma qualquer coisa para ser apresentada, a gente quer tratar de temas fortes, eu separo em peças infantis e adultas, quero tentar abordar esses temas nas peças adultas, e se não forem temas raciais, serão temas da vida, traição, coisas que abordem algo interessante. Eu gostaria de falar de sentimentos, em como eles podem afetar uma relação, a amizade, família, eu queria entrar nisso com o grupo. 


A peça “Oxê, sumiu!” é de cunho popular, com uma abordagem de temas e estética que compõem uma cidade interiorana, narra o cotidiano de pessoas comuns lidando com as casualidades da vida, você acha que esse formato de espetáculos é mais acessível para quem está começando a ver teatro?


Sim, lida exatamente com o cotidiano, são coisas que você tem ali no seu dia a dia, sonhos, andar, fazer compras, conversar, com os amigos. A nossa peça vai muito disso, o que muda um pouco é quando entramos na dança, mas tratamos de coisas que as pessoas fazem realmente. Quando começamos a criar o roteiro, pensamos no interior por conta das vivências, dos mitos, das lendas, e a gente consegue trabalhar com isso. Quando o santo some, eles criam várias lendas, várias teorias, e não pensam no óbvio, que ela foi roubada. 


Você faz parte dos projetos da Paulista Filmes, que produz cinema independente. Me conta o que é a Paulista Filmes e o que vocês produzem? 


A Paulista Filmes é uma produtora, a gente faz o cinema de guerrilha, no geral somos eu e o Luiz, que é quem produz, dirige, e também atua, e a gente vai convidando as pessoas. Dessa vez a gente conseguiu fazer parceria com outra produtora, isso através dos editais, que a gente tem dinheiro. É uma outra produtora de Caieiras, voltada para o audiovisual. Geralmente sai tudo do nosso bolso pra fazer qualquer criação, qualquer coisa que vá precisar, aluguel, compra de equipamentos, pagamento das pessoas, ator e figuração. Tudo é do nosso bolso. Agora que a gente tá conseguindo o dinheiro pelas leis, aqui em Caieiras, pelo menos. Eu ajudo mais na assistência de produção, eu sou assistente e ator, mas a gente faz isso para criar oportunidades, quando a gente começou lá em 2016, muitas coisas estavam se criando na internet, pensamos que poderíamos produzir e criar nossas oportunidades, sem precisar ir nos lugares, bater nas portas, a internet hoje facilita bastante, vamos colocar nossas produções de guerrilha, independentes, e vemos se alcançamos público, apoio e visibilidade para continuar seguindo.

Agora que a gente tá começando a conseguir as coisas, por conta dos editais.

Em 2021 não era a Paulista Filmes ainda, mas também pegamos um Edital Paulo Gustavo pra produzir um curta também. 


É uma produção local, há a preocupação de retratar e debater a realidade e o cotidiano regional?


Algumas coisas são limitadas, temos receio de entrar em algumas zonas, o Luiz já me pediu algum roteiro, de alguma história sobre casais gays, ou de alguma outra coisa pra gente fazer. Estamos abertos para trabalhar nisso, de temas dentro da cidade, de algo que atrapalhe a população, a gente tem certo medo de tratar de algumas coisas, pois de alguma forma eles são o nosso apoio.


Você já interpretou Jesus Cristo na encenação da Paixão de Cristo em Caieiras, um evento importantíssimo para a cidade. Qual a sensação de representar um personagem histórico tão importante e tão presente na sociedade brasileira? 


É uma sensação pesada, sempre queremos fazer um bom trabalho, mas há muita dor por trás daquilo, as pessoas tem seus sentimentos, suas ideias sobre a personagem, e eles, muitas vezes, querem idealizar aquilo em cima de você, eu me sentia um pouco pressionado por isso, me perguntando, será que estou entregando aquilo que as pessoas esperam, ou o que é preciso, sabe? Mas sempre é muito bom, tem essa pressão, mas ao mesmo tempo é muito bom, traz muitas sensações dentro da gente, enquanto pessoas e enquanto artista. 


E como você destaca a relevância de um ator negro, interpretar esse papel, contrariando as definições européias?


Me senti julgado, por conta da pressão estética de como é Jesus na sociedade. Tem um julgamento estético. As pessoas esperam que ele seja muito calmo, traga muita paz, e essas coisas, e na minha visão era tudo muito conturbado, é um sentimento de sensações, era tudo muito novo ali pra ele, então era também pra mim. Na cabeça de algumas pessoas, eles entendem que pra fazer Jesus, é só ser calmo, e não era isso que eu sentia, não era isso que eu queria fazer. Às vezes ele sentia toda essa pressão dos outros também. 

Tem uma pressão, me sentia julgado, tinha um pré conceito até meu, depois você entende que não precisava ter essa capa estética, apenas os sentimentos, você descobre as nuances nos meses de ensaio. Eles querem cabelo grande, mas como eu vou deixar crescer se meu cabelo grande é black? Mas eu também não me preocupava muito, em Caieiras as preocupações são outras. Fiz três vezes o papel, e sempre sentia as mesmas coisas, nesse sentido nada muda muito. 


Recentemente você foi premiado com a nomeação de artista revelação, em um festival de teatro em Itu, com a peça “Oxi, Sumiu!”. Qual foi sua reação e sensação? 


Eu fiquei muito feliz, me deu um gás. Dentro das coisas que eu estava passando, eu tinha dado uma pausa no teatro, mas foi um impulso para acreditar no meu trabalho, no meu potencial. Não acho que eu estava entregando um bom trabalho, quer dizer, um trabalho completo, e mesmo assim eu estava sendo notado, eu me senti muito bem. E a sensação de ser notado é muito gratificante, você se sente um pouco mais completo, mais realizado. Eu alcancei aquilo que eu queria, tocar as pessoas. Eu to fazendo pra um publico, tem nossas realizações pessoais também, e eu alcancei. Me senti realizado. 


Isso gerou algum entusiasmo na carreira?


Ser premiado te faz acreditar, querendo ou não, ver pessoas acreditando em você te dá mais vontade de fazer, você quer mais, coloquei mais foco na companhia e na produção, comecei a procurar mais editais, fazer mais amizades de pessoas na área, pra aprender mais sobre as coisas. Eu quero, inclusive, tirar meu DRT, comecei juntar as coisas para conseguir mais trabalhos, trabalhos profissionais,

quero ser mais maduro e profissional. 

A dificuldade maior pra mim, pra ser artista, é a pressão social que eu tenho na minha vida, de ter que estudar, trabalhar, eu não tenho muito tempo pra me dedicar a isso, eu preciso alinhar as coisas na minha vida, mas tô caminhando pra ver o melhor jeito de entrar na área profissional. A parte financeira sempre foi o que pesou.

Mas acredito que pro artista, ainda mais pro ator, nunca é tarde, sempre haverão papeis. 

Produzindo arte na região, o que é ou quais são suas maiores dificuldades?


Acesso. Acesso aos espaços e as pessoas que possam ajudar a resolver as coisas. Eu me pergunto como tenho que chegar, isso me atrapalha, como eu tenho que ir, com que coisas, o jeito que eu sou, me parece que minha personalidade pode atrapalhar meu trabalho. Eu quero dizer que meu jeito de me expressar gera uma conclusão, se eu chego com meu estilo, eu não vou ser visto da mesma forma do cara que chega engravatado, carregando livro na mão. Eu sinto essa dificuldade e às vezes quero colocar outras pessoas na minha frente, por eu achar que eu não sei lidar com aquilo, que eu não sou apresentável. Os lugares te esperam de outra forma, as pessoas te olham de cima a baixo, me sinto julgado nesses lugares. Eu dou minha cara a tapa, mas tem diferença nos tratamentos. Pode ser racismo. Às vezes, eu penso nisso.


O que é ou quais são suas maiores dificuldades do coletivo?


A gente não tem um espaço fixo para ter ensaio, sempre as pessoas tem que se locomover, e isso impacta, por exemplo, nas passagens, alimentação. No financeiro temos dependido de editais, usamos esse dinheiro pra cuidar de figurino e outras coisas. O tempo também nos afeta, mas não é culpa de ninguém específico. 


Como você acha que os editais ajudam na propagação da cultura em caieiras?


Ajudam principalmente no financeiro, na produção, no conhecimento das companhias existentes, conseguimos separar um cachê, que é um valor bem baixo, não é um salário, é pela apresentação. É menos de 20% do valor do projeto para salário, e dividimos em vários. Os valores divididos em Caieiras são baixos, eles fazem de uma forma que beneficia várias pessoas, só que no fim o valor é muito baixo. No outro projeto estamos fazendo as coisas com vinte mil reais, mas as coisas são muito caras, os valores não são suficientes para suprir tudo, muitas coisas vão ficando.

A gente abre mão de salário, faz as coisas lindas, mas com o bolso vazio.

Existem artistas ou coletivos na cidade ou na região produzindo arte e que te inspire?


O Entre Atlânticas me inspira, você e a Nauali. Tem o Terceiro Sinal. Eles tem ideias boas, que funcionam, o Festeca! (Festival de Teatro de Caieiras), por exemplo, é uma idealização deles. Eles também trazem outras coisas, ideias para a Paixão de Cristo, por exemplo.


Qual artista negro te inspira? 


O Martinho da Vila, as músicas dele são boas, me inspiram, tem a Luedji Luna, ela canta muito sobre orixás e cultura afro, a Viola Davis, que tá agindo em prol das causas raciais. Ah, a Alcione também. Eu não mergulho muito nas vidas das pessoas, eu só gosto.

Mas sei que o que gera mais identificação é o que um artista negro tem pra falar,

mesmo que seja um negro rico, ele passa coisas parecidas. Hoje tenho buscado a vida como inspiração, a minha vida, minha família, mãe, animais, natureza, se eu quero magia, vou na natureza e busco o que é mágico. Busco mais no real as minhas pesquisas. As vezes eu me idealizo muito nas coisas que eu busco também, pela ansiedade em fazer, às vezes eu não vejo os degraus, já vejo lá em cima. Eu me sinto falho no meu conhecimento como artista negro, me cobro sempre de acompanhar os debates e as realidade na nossa volta. 


O que o Marco ainda gostaria de produzir na cidade? Aquele sonho que vem na sua cabeça às vezes. 


Tenho dois sonhos, tanto pro audiovisual quanto pro teatro, no teatro meu sonho é fazer histórias de uma forma grande, da mesma forma que é feita a Paixão, com os bailarinos, músicos e os atores da cidade, faria um musical ou algo do tipo. Queria contar algumas histórias bíblicas, outras autorais. Faria o musical de Moisés, o príncipe do Egito, e coisas autorais com mitologia grega e egípcia.

Acredito que os artistas da cidade saberiam fazer isso de uma forma bem bonita.

Marco, você acredita que a arte seja necessária para a sociedade? Por que?


E me sinto muito vivo fazendo arte, teatro, cinema, me inspira contar as próximas histórias, tem vários momentos que eu penso em parar, e penso, mas aí, e as próximas histórias? E esse outro personagem? 

A arte ajuda a acolher as pessoas em um mundo diferente. 

Assim como eu fui um dia uma pessoa que precisava fugir um pouco de onde estava, não fugir da minha realidade, mas me deslocar e conhecer outras coisas além daquilo, ver outras possibilidades, contradições. 

A arte ajuda a questionar e perceber o nosso redor, e se localizar, e também se perder nas possibilidades daqueles mundos. 

Você pode nos deixar uma recomendação? Uma música, um poema, um vídeo ou recomendar um livro?


Tenho ouvido muitas músicas, muito rap, rap conta muita coisa. A música me inspira bastante, eu tiro muitas ideias delas, e me ajudam muito com a ansiedade. Eu indico o álbum do BK, é BK Diamantes, lágrimas e rostos pra esquecer.


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